MISA Angola critica formação universitária e aponta falhas no ensino do jornalismo – Correio da Kianda
O presidente do Instituto para a Comunicação Social da África Austral (MISA) em Angola, André Mussamo, considera que a formação universitária na área do jornalismo apresenta limitações e defende uma aposta mais forte no ensino específico da profissão.
Em declarações esta terça-feira, 25, à Rádio Correio da Kianda, durante o programa Capital Central, André Mussamo afirmou que, pela sua experiência, o jornalismo não é suficientemente trabalhado ao longo de algumas licenciaturas ligadas à comunicação, sendo muitas vezes abordado apenas numa fase avançada da formação.
Para o responsável do MISA Angola, a componente jornalística deveria começar logo no primeiro ano dos cursos, combinando desde cedo a teoria com a prática e o exercício profissional.
“O jornalismo, nas universidades especializadas, quanto mais cedo começa, no primeiro ano, a teoria do jornalismo, a prática, o exercício, etc., começa no primeiro ano”, afirmou.
André Mussamo entende que a forma como o jornalismo é leccionado também pode estar a influenciar a escolha dos temas dos trabalhos académicos. Segundo o responsável, muitos estudantes optam por investigar áreas como publicidade e comunicação social, enquanto poucos desenvolvem trabalhos especificamente relacionados com o jornalismo.
Na sua avaliação, esta realidade pode ser explicada pelo contacto insuficiente dos estudantes com os fundamentos da profissão durante os primeiros anos da formação.
“Poucos se aventuram em trabalhos sobre jornalismo. Por quê? Porque não perceberam o jornalismo ao longo dos quatro anos da licenciatura”, afirmou.
A posição do presidente do MISA Angola surge num momento em que o jornalismo enfrenta novos desafios provocados pela transformação digital, pela proliferação das redes sociais e pelo crescimento de plataformas independentes de informação.
A expansão desses canais facilitou a produção e distribuição de conteúdos, mas também aumentou a circulação de informação não confirmada, conteúdos manipulados e publicações produzidas por pessoas sem formação jornalística.
O próprio André Mussamo tem defendido publicamente a necessidade de reforçar os mecanismos de autorregulação e de proteger a profissão jornalística. Num artigo publicado a 24 de Agosto, o responsável alertou para o surgimento dos chamados “pistoleiros virtuais” e defendeu uma operação de resgate da profissão, incluindo a valorização da carteira profissional.
O MISA Angola tem igualmente desenvolvido iniciativas de formação jornalística. Em 2024, a organização promoveu, em Cabinda, um workshop sobre jornalismo investigativo dirigido a profissionais de vários órgãos de comunicação social, com o objectivo de fortalecer a liberdade de imprensa e de expressão e a qualidade do exercício profissional.
Para André Mussamo, melhorar a formação dos jornalistas exige o envolvimento das universidades, dos órgãos de comunicação social, das organizações profissionais e dos próprios jornalistas.
“Tem muito trabalho a fazer. E todos nós estamos chamados a contribuir para esta tarefa árdua”, afirmou.
As declarações foram proferidas durante o debate do Capital Central, da Rádio Correio da Kianda, que analisou “A crise de credibilidade e os desafios do jornalismo em Angola na era digital”.