Turfeiras de Angola são quatro vezes maiores do que se previa, revela novo estudo – Correio da Kianda
As turfeiras de Angola, ecossistemas fundamentais para a regulação do fluxo de água nos maiores sistemas fluviais da África Austral e para o armazenamento de carbono, são pelo menos quatro vezes maiores do que inicialmente se pensava. De acordo com um novo estudo apoiado pela organização The Nature Conservancy e pela empresa diamantífera De Beers, estas áreas húmidas cobrem uma extensão de cerca de 11.100 quilómetros quadrados, revelando um património ecológico até agora subestimado no país.
Estes ecossistemas, caracterizados por solos saturados de água e pobres em oxigénio que retardam a decomposição da matéria vegetal, desempenham um papel vital na manutenção do caudal de rios cruciais, como o Zambeze. Além disso, as turfeiras alimentam o Delta do Okavango, no Botsuana, uma região que alberga a maior população de elefantes do mundo. A sua capacidade de armazenar água durante a estação chuvosa e libertá-la gradualmente ao longo do ano funciona como uma autêntica esponja natural, integrando a chamada ‘Torre de Água do Planalto de Angola’.
Embora as turfeiras angolanas sejam menores do que as localizadas na Bacia do Congo, que representam as maiores zonas húmidas tropicais do planeta, esta descoberta sugere que o continente africano pode conter reservas de carbono ainda desconhecidas. Cientistas de todo o mundo têm sublinhado a relevância destas áreas na mitigação do aquecimento global, devido à sua extraordinária capacidade de reter o carbono no subsolo em vez de o libertar para a atmosfera.
Citado pela News24, Mauro Lourenço, ecólogo geoespacial e principal autor do artigo científico, explicou que a comunidade científica está apenas a começar a compreender a real dimensão das turfeiras tropicais em África. O especialista, que colabora com o Wild Bird Trust e com o Projecto de Vida Selvagem do Okavango da National Geographic, destacou que, embora Angola surja agora com a quinta maior área de turfeiras do continente, existem fortes indícios de que mais depósitos possam ser encontrados em países como a Zâmbia, Lesoto, África do Sul e no Sudão do Sul.
O principal objectivo desta fase da investigação foi comprovar cientificamente a existência e a extensão destas turfeiras em território nacional. Segundo os investigadores, o próximo passo consistirá na realização de um inventário completo de carbono para quantificar com precisão o volume armazenado nestes solos de Angola. Esta informação será crucial para traçar estratégias de conservação eficazes a nível regional.
A água proveniente destas formações desagua na Área de Conservação Transfronteiriça Kavango-Zambeze (Kaza), uma zona de biodiversidade partilhada por cinco países que serve de habitat para cerca de 228.000 elefantes selvagens. Adicionalmente, o caudal do Rio Zambeze assegura o funcionamento de centrais hidroeléctricas essenciais para o fornecimento de energia eléctrica a Moçambique, Zâmbia e Zimbabué, reforçando o valor estratégico das turfeiras de Angola para a estabilidade económica e ambiental de toda a região da África Austral.
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