A COBARDIA DE JOÃO LOURENÇO
Os ortodoxos do regime angolano, do MPLA há 50 anos e capitaneados por João Lourenço nos últimos dez, não conseguem deixar aos angolanos algo mais do que a pura expressão da cobardia que, entre outras coisas, faz com que milhões de angolanos tenham pouco ou nada, e poucos (todos do MPLA) tenham muitos milhões.
Por Orlando Castro
João Lourenço acusou, no Bié, a UNITA, e as suas forças militares, de ter sido responsável pela destruição da capacidade industrial do país durante a guerra, o que criou dificuldades adicionais na criação de emprego para os jovens.
Talvez esses génios do MPLA, quase todos paridos nas latrinas da cobardia, pensem que não é necessário dar corpo e alma à angolanidade. É por isso que alimentam o ódio e a discórdia, o racismo, não reconhecendo que a liberdade deles termina onde começa a dos outros. Não aceitando que a reconciliação passa pela inclusão e não pela exclusão, não reconhecendo que numa guerra, como foi a nossa, ninguém teve razão.
Porque não há comparação entre o que se perde por fracassar e o que se perde por não tentar, permitimo-nos a ousadia (que esperamos – com alguma ingenuidade, é certo – compartilhada por todos os que responderam a esta chamada) de tentar o impossível já que – reconheçamos – o possível fazemos nós todos os dias.
Como jornalista, como angolano, como ser humano, entendo que a situação angolana ultrapassou durante a guerra todos os limites, mau grado a indiferença criminosa de quem, em Angola ou no Mundo, depois de alcançada a paz continua a permitir que o povo morra mesmo antes de nascer.
Ao reacender sistematicamente estas acusações, João Lourenço mostra que – afinal – pertence ao grupo que advoga a tese de que em Angola existem dois tipos de pessoas: os angolanos (os que são do MPLA) e os outros (os que não são do MPLA).
João Lourenço está-se nas tintas para os tais “outros” que morrem todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos. E morrem enquanto o MPLA (este MPLA) canta e ri. E morrem enquanto ele, em Luanda, come caviar.
É que, quer o MPLA queira ou não, como na guerra, a vitória é uma ilusão quando o povo morre à fome. E nós temos 20 milhões de pobres. Tal como está a Angola profunda, a Angola real, a Angola construída à imagem e semelhança do MPLA e dos seus dirigentes, ninguém sairá vencedor das próximas eleições. Todos perdem. Todos perdemos.
Admito, por ingenuidade, que o próprio João Lourenço terá de vez em quando consciência de que a sua ditadura não é uma solução para o problema angolano, sendo antes um problema para a solução. No entanto, João Lourenço não pode ter mais esse benefício da dúvida. O seu comportamento mostra um índice de menoridade civilizacional e um nanismo intelectual que só tem um objectivo: instaurar o partido único, blindar a ditadura e negar qualquer direito aos escravos do reino.
Numa altura em que seria pequeno o passo que é preciso dar para que os angolanos, irmãos de sangue, se entendam para ajudar Angola a ser um país onde os angolanos sejam todos iguais e não, como aconteceu nos 50 anos de suposta independência, uns mais iguais do que outros, João Lourenço mostra que também ele tem o cérebro à saída do intestino grosso.
Se em 2002 todos nos entendemos para que Angola deixasse de ser uma gigantesca vala comum, não seria difícil que que nos entendêssemos no sentido de que a força da razão substitua a razão da força. Eis então que aparece João Lourenço a defender o contrário, desenterrando muitos fantasmas e mostrando que para ele a guerra só acabará quando deixarem se existir pessoas que pensem de maneira diferente.
Durante demasiados anos de guerra, os angolanos mataram-se uns aos outros. Acabada essa fase, os angolanos continuam a matar-se uns aos outros. Não directamente pela força das armas, mas pelo poder que as armas dão aos que querem – o MPLA – subjugar os seus irmãos que consideram de espécie inferior.
Mais do que julgar e incriminar, importava parar com as acusações. Parar definitivamente. João Lourenço e o MPLA assim não entendem. Aproveitaram o intervalo na guerra que acham que ainda não acabou para, no meio de palavras às vezes simpáticas e conciliadoras, ganhar tempo e continuar o processo de esclavagismo, ganhar tempo para formar novos milionários, ganhar tempo para sabotar eleições, ganhar tempo para enganar o Povo.
Angola tem generais assassinos a mais e angolanos a menos. Angola tem feridas suficientes para ocupar os médicos (que não tem) durante décadas. Mesmo assim, João Lourenço não está satisfeito.
Convém, por isso, que a democracia, a igualdade de oportunidades, a justiça, o Estado de Direito cheguem antes de morrer o último angolano.
Foto – João Lourenço tinha acabado de ser “eleito” Presidente de Angola. A RTP África convidou Orlando Castro, enquanto jornalista e director-adjunto do Folha 8, para perspectivar o futuro do país.
Todos os peritos diziam que iria ser um Gorbachev ou um Deng Xiaoping. Orlando Castro afirmou que seria mais do mesmo, uma troca de seis por meia dúzia. Porque, justificou, filho de jacaré é jacaré e não há jacarés vegetarianos.