A Argentina ensina o que muitos em Angola esqueceram – Correio da Kianda
A união que a Argentina demonstrou em campo, neste Mundial FIFA das Américas é algo bonito de se ver. Mais do que talento individual, a selecção evidencia espírito colectivo, disciplina e um compromisso comum inabalável com a vitória.
Um dos aspectos mais marcantes é a forma como os jogadores se entregam para ajudar Lionel Messi. Longe de diminuir os restantes jogadores, essa postura demonstra humildade e inteligência colectiva. Todos reconhecem, sem constrangimentos, que Messi é o “cara”, como dizem os brasileiros. Reconhecem nele uma liderança construída ao longo dos anos, assente no talento, nos resultados e na dedicação.
Quando uma liderança é legitimada pelo mérito, ela é naturalmente aceite. Há quem diga que, por vezes, os seus companheiros jogam para Messi. Se isso acontece, é porque reconhecem nele a capacidade de fazer a diferença. Não se trata de submissão, mas de confiança numa liderança que inspira e produz resultados.
Esta realidade oferece importantes lições para as organizações, sobretudo para os partidos políticos. Em Angola, vivemos tempos em que muitos querem liderar, mas poucos se preocupam em construir a autoridade moral e a capacidade necessárias para o fazer. Daí surgem disputas pelo poder, intrigas e divisões que, muitas vezes, enfraquecem as instituições.
Talvez seja tempo de as organizações voltarem a apostar nos melhores, naqueles que conquistam respeito pela competência, pela visão e pelo exemplo.
A juventude angolana também atravessa uma crise de liderança. Hoje, muitos acreditam que basta participar em alguns podcast ou publicar algumas ideias e fotos na internet para se tornarem referências. No entanto, liderança exige muito mais do que visibilidade. Exige carácter, disciplina, conhecimento, capacidade de inspirar e uma trajectória capaz de sustentar a confiança das pessoas.
Vemos, por vezes, jovens sem carisma, sem histórias de vida capazes de inspirar outros jovens, sem autoridade reconhecida na sociedade, ou até mesmo no bairro que os viu nascer, sem disciplina e sem convicções. Em muitos casos, a única ideologia que professam, é a do dinheiro.
A grande lição da Argentina é simples: quando uma pessoa demonstra capacidade, competência e liderança, o reconhecimento surge naturalmente. As pessoas aceitam ser lideradas por quem as convence pelo exemplo e pelos resultados.
A história de Angola oferece vários exemplos de figuras que exerceram liderança porque conseguiram mobilizar e convencer os seus seguidores, entre elas Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos e Luther Rescova. Independentemente das diferentes leituras históricas sobre cada uma destas personalidades, é inegável que exerceram influência e foram reconhecidas como líderes pelos seus respectivos apoiantes.
A Argentina recorda-nos que nenhuma equipa vence apenas pelo brilho individual. As grandes conquistas nascem quando o talento se alia à humildade, quando cada um compreende o seu papel e quando a liderança é reconhecida pelo mérito, e não apenas pela ambição.