O Papa sem exército e a geopolítica da força – Correio da Kianda
Num mundo em que os Estados medem poder através de exércitos, sanções, tecnologia, recursos estratégicos e capacidade económica, existe uma figura singular que continua a influenciar a política internacional sem possuir divisões militares, armas nucleares ou poder económico coercivo: o Papa.
É precisamente por isso que a posição de Leão XIV sobre a Palestina merece mais do que uma leitura religiosa ou humanitária. Quando o Sumo Pontífice exige o fim da violência contra a população civil palestiniana na Cisjordânia e apela à comunidade internacional para que faça avançar a solução de dois Estados, está a exercer uma forma particular de poder: o poder normativo.
A pergunta, portanto, não deve ser se o Papa consegue obrigar Israel a mudar de política. Não consegue. A Santa Sé não dispõe de instrumentos coercivos comparáveis aos das grandes potências. Não possui forças armadas capazes de alterar a correlação de forças no terreno, nem instrumentos económicos para impor custos directos às partes envolvidas.
Mas poder não é apenas coerção.
Nas Relações Internacionais, influência também significa capacidade de produzir legitimidade, moldar narrativas, estabelecer normas e mobilizar actores. É precisamente neste domínio que reside uma parte substancial da relevância contemporânea da Santa Sé.
Com relações diplomáticas com 184 Estados, a Santa Sé possui uma presença internacional que poucos actores não estatais conseguem igualar. O seu verdadeiro activo estratégico não está no território do Vaticano, mas na sua rede diplomática, autoridade moral e capacidade de comunicação transnacional.
A questão palestiniana revela particularmente bem essa realidade.
Ao defender a protecção dos civis e a solução de dois Estados, Leão XIV reafirma princípios fundamentais da ordem internacional: autodeterminação dos povos, respeito pelo direito internacional, protecção da população civil e resolução negociada dos conflitos.
Mas existe aqui um paradoxo.
A comunidade internacional pode reconhecer uma norma sem possuir capacidade suficiente para a fazer cumprir.
É esta uma das grandes fragilidades do sistema internacional contemporâneo. A solução de dois Estados continua a ser defendida diplomaticamente por numerosos actores, enquanto as transformações políticas e territoriais no terreno tornam a sua concretização cada vez mais complexa.
O problema, portanto, não é apenas a ausência de paz. É a crescente distância entre a ordem internacional que se proclama e a ordem internacional que efectivamente se pratica.
É neste espaço que a Santa Sé procura actuar.
O Papa não está simplesmente a pedir que “todos façam as pazes”. Está a defender uma determinada concepção da política internacional: uma ordem em que a força não substitua o direito, em que os factos consumados não eliminem a diplomacia e em que a segurança de um povo não seja construída à custa da insegurança permanente de outro.
Para África, esta discussão possui particular importância. O continente conhece, por experiência histórica, o peso da ocupação, da autodeterminação, das fronteiras, dos conflitos e das assimetrias de poder. A defesa do direito internacional e da solução política dos conflitos encontra, por isso, forte ressonância na tradição diplomática africana.
Angola, enquanto Estado que procura reforçar o seu perfil diplomático e a sua capacidade de mediação, poderia explorar melhor estas convergências entre a diplomacia africana, a Santa Sé e o sistema multilateral.
No entanto, não devemos romantizar o poder papal.
Uma voz moral pode denunciar a injustiça, mas não consegue, sozinha, interromper uma guerra.
A eficácia da diplomacia da Santa Sé dependerá da sua capacidade de converter autoridade moral em acção diplomática concreta, aproximando governos, organizações internacionais, actores religiosos e partes em conflito.
No fundo, a questão não é saber se o Papa ainda tem influência.
Tem.
A verdadeira questão é outra: num sistema internacional cada vez mais dominado pela força, ainda existe espaço para aqueles cujo principal instrumento de poder é a legitimidade?
A Palestina oferece uma resposta incómoda.
O Papa pode não ter um exército para impor a paz. Mas continua a possuir algo que nenhuma arma consegue produzir: a capacidade de colocar a consciência internacional diante das contradições do próprio sistema que governa o mundo.