“Saúde mental ainda é negligenciada pelas famílias angolanas”, afirma psicólogo – Correio da Kianda
A saúde mental continua a ser pouco valorizada por muitas famílias angolanas, que frequentemente procuram respostas espirituais ou sociais antes de recorrerem ao acompanhamento psicológico, alertou o psicólogo Amâncio Emanuel Justino.
A declaração surge na sequência do caso ocorrido em Menongue, província do Cubango, envolvendo uma mulher de 29 anos, detida pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC) por alegadamente ter desenterrado o corpo de um bebé para convencer o namorado de que esteve grávida. O episódio reacendeu o debate sobre a importância da atenção aos transtornos psicológicos e ao acompanhamento emocional.
Segundo Amâncio Emanuel Justino, situações extremas como esta devem ser analisadas para além do acto praticado, procurando compreender os factores emocionais, sociais e psicológicos que podem estar na origem de determinados comportamentos.
O especialista considera fundamental identificar os possíveis gatilhos que levaram a mulher a adoptar tal conduta, apontando que a pressão no relacionamento, o desespero e eventuais crises psicológicas podem ser elementos a avaliar.
“Para esta mulher incorrer nesta acção é importante entendermos quais foram os gatilhos que a levaram a recorrer a isso. É preciso perceber a raiz do problema para compreender o quadro psicológico desta pessoa”, afirmou.
O psicólogo lamenta que parte da sociedade ainda associe determinados comportamentos apenas a questões espirituais, recorrendo primeiro a igrejas ou práticas tradicionais e deixando em segundo plano a procura de profissionais da área da saúde mental.
Na sua visão, uma abordagem psicológica permitiria compreender se a pessoa enfrenta situações de sofrimento emocional, pressão social, traumas ou outras dificuldades que precisam de acompanhamento adequado.
“Quando colocamos tudo na conta de questões espirituais, limitamos a possibilidade de identificar as verdadeiras causas e de resolver o problema”, sublinhou.
Por outro lado, o sociólogo Cláudio Sabado considera que o caso também levanta preocupações sobre o estado da saúde mental da população e sobre a preservação dos valores culturais relacionados ao respeito pelos mortos.
Para o sociólogo, os restos mortais possuem um significado profundo nas tradições africanas, sendo vistos como elementos ligados à ancestralidade e que merecem respeito, pelo que situações desta natureza provocam forte impacto social.
Os especialistas defendem que o reforço do diálogo dentro das famílias, a identificação precoce de sinais de sofrimento psicológico e o acesso ao acompanhamento profissional são caminhos importantes para enfrentar os desafios da saúde mental em Angola.