Académicos defendem reforma do ensino para responder às exigências do mercado de trabalho – Correio da Kianda
Académicos angolanos defenderam uma reforma estrutural do sistema de ensino, considerando que a formação ministrada nas instituições de ensino continua desajustada às necessidades do mercado de trabalho e aos desafios do desenvolvimento económico do país. O posicionamento foi manifestado durante o programa Capital Central, da Rádio Correio da Kianda.
O académico Marcolino Chiungue afirmou que o actual modelo de ensino privilegia áreas teóricas e humanísticas, enquanto sectores estratégicos como a agricultura, a indústria e as tecnologias permanecem sem a atenção necessária.
Segundo o académico, esta realidade faz com que o país continue a formar licenciados para áreas com reduzida capacidade de absorção, agravando o desemprego entre os jovens. “São áreas frutíferas e essenciais para o crescimento do país, mas continuam sem prioridade. Formamos jovens, mas não existe uma política clara, objectiva e eficaz de empregabilidade, cuja implementação possa ser verificada no dia-a-dia”, afirmou.
Marcolino Chiungue defendeu que a reforma do ensino deve ser acompanhada por políticas públicas capazes de aproximar a formação das necessidades da economia, responsabilizando igualmente o Estado pela falta de mecanismos eficazes para promover a inserção profissional dos recém-formados.
Na mesma linha, o sociólogo Agostinho Paulo considerou que Angola continua a enfrentar problemas estruturais que limitam as oportunidades para a juventude. Para o especialista, as assimetrias políticas condicionam a implementação de políticas públicas voltadas para o emprego e o desenvolvimento dos jovens.
Ao referir-se ao Instituto Angolano da Juventude, afirmou que a actuação da instituição está limitada pelo Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM). “O PIIM tem mais poder do que as próprias atribuições do Instituto da Juventude”, sustentou.
Também participante do debate, o especialista em Gestão e Administração Pública, Denílson Duro, defendeu que a reforma do ensino deve ser acompanhada pela valorização da meritocracia, condição que considera indispensável para melhorar a qualidade da formação e potenciar o empreendedorismo.
“Como é que usamos e capitalizamos a juventude que temos? Se colocarmos a meritocracia nas relações sociais, um número significativo de jovens estará envolvido e produzirá efeitos multiplicadores”, afirmou.
Denílson Duro alertou ainda que a ausência de critérios meritocráticos nos concursos públicos compromete a qualidade das instituições de ensino superior e dos institutos de formação. Defendeu igualmente a formalização de profissões ainda sem reconhecimento adequado, como forma de ampliar as oportunidades de inclusão no mercado de trabalho.
Os três especialistas convergiram na necessidade de uma reforma do sistema educativo que fortaleça a ligação entre a formação académica e as exigências do mercado, aposte em áreas técnicas e produtivas e promova o mérito como instrumento para impulsionar o desenvolvimento económico e social de Angola.