HIGINO CARNEIRO MENTIU SOBRE O ACORDO DO ALTO KAUANGO
No dia 15 de Maio de 2020, na sua página do Facebook, o general Higino Carneiro escreveu (ipsis verbis): «Dia 15 de Maio de 1991 é uma data inesquecível para mim e para todos quantos ainda em vida protagonizaram aquele memorável encontro entre as Chefias das FAPLA e da das Forças Militares da Unita na nascente do Rio Cauango-Moxico. Recordo com saudade o estreitar de mãos entre militares desavindos que apesar do ulterior desfecho da guerra permitiu que nos conhecêssemos e respeitássemos com Angola em Paz as diferenças de cada um».
Por Orlando Castro
Higino Carneiro acrescentava: «Ao General Amós Chilingutila, ao General Makenzie pessoas que comigo ainda resistem aos ventos do tempo e jubilam de alegria com todos os Angolanos em Paz, o meu abraço de profundo respeito nesta data.
«Ao William Tonet o meu abraço de camarada por ter estado comigo e com todos os presentes naquele encontro delicado para o momento. Soubeste com a tua pena de jornalista ajudar a divulgar aquele feito histórico, que permitiu a cessação das hostilidades militares, precedendo a Assinatura dos Acordos de Bicesse, que teve posteriormente lugar, em Lisboa, no dia 31 de Maio de 1991.
«Rendo sentida homenagem aos Generais Agostinho Nelumba” Sanjar, Arlindo Chenda Pena” Ben Ben”, José Nogueira Kanjundo e ao Brigadeiro Consagrado que há muito partiram deste mundo e que não podem hoje, conosco, recordar com nostalgia está data.
«Ao Tenente General Manuel José Ribeiro da Fonseca ”Neco” então Comandante da 3 Região Militar os meus e nossos agradecimentos e por seu intermédio a todos os Oficiais, Sargentos e Soldados por terem assegurado que o encontro tivesse decorrido sem sobressaltos».
William Tonet respondeu: «Caro amigo Higino entendo que a pressão e a nostalgia, nos levam a antecipar o tempo e omitir, alguns factos. Ninguém pode, os vivos, esquecer a tua participação, como uma das partes subscritoras, mas não operacional, para a sua realização.
«A história impõe-nos um certo rigor, no complemento dos factos e dados.
«No essencial, o teu post tem uma visão do encontro, mas é preciso recordar que no dia 15.05 não houve nada, pois, nessa data eu (William Tonet) ainda estava do lado da UNITA a encetar as bases para a negociação, quer com o general Bem-Ben, quer com Jonas Savimbi.
«Esse dia (15.05) foi importante, mas este encontro, em que eu apareço, não como jornalista, mas como mediador (ou será por ser preto, que isso não é relevado), ocorreu no dia 19 de Maio de 1991.
«O local confere, com a tua descrição. Mas é preciso, por uma questão de honestidade, reconhecer o papel do hoje general Marques Banza, esse sim, foi quem, do lado do governo (FAPLA) garantiu as condições de segurança, mais do que o general Neco que se encontrava no bunker. Outro, importante foi o do general Mackenzi, que ao interferir, nas minhas comunicações, por satélite, desafiado por mim, encetou os contactos com o seu alto comando, para que eu pudesse ir para o lado das trincheiras da UNITA.
«Sem o contacto do general Mackenzi, a minha ida às posições avançadas das FALA (como elemento neutro) e confiança que Bem-Ben e Savimbi tinham, não haveria esse contacto histórico. Essa é a verdade.
«Depois é preciso, também, destacar o papel do general José Maria, que viabilizou os contactos telefónicos, entre mim e o Presidente José Eduardo dos Santos (e, outras vezes, o general Miala) durante quatro dias, para o consentimento, do lado governamental, para que os seus oficiais se sentassem para negociar, havendo igual anuência de Jonas Savimbi, o primeiro Acordo de Paz de Angola, mediado por um angolano, por sinal, jornalista.»
Os méritos do general Higino Carneiro eram reconhecidos por muitos, sobretudo pelas três figuras que durante 38 anos foram as principais do país. A saber, o Presidente do MPLA (José Eduardo dos Santos), o Titular do Poder Executivo (José Eduardo dos Santos) e o Presidente da República (José Eduardo dos Santos).
Em Abril de 2015, os mais atentos viram as monumentais mentiras, omissões e meias verdades do General Higino Carneiro que, com alguma sobranceria como se fosse incólume à verdade, quis reescrever a História e esconder eventuais rabos-de-palha.
O General Higino Carneiro a despropósito concedeu, no dia 3 de Abril de 2015, uma entrevista à RNA onde mentiu descaradamente, sobre a Mediação dos Acordos do Alto Kauango (ou Cauango), mostrando também a sua veia – nem sempre visível mas reiteradamente eterna – racista e complexada.
Higino Carneiro mentiu e comprometeu-se, pois a ser verdade o que disse, então ele era e é um traidor e um dos generais das FAPLA pagos e infiltrado por Jonas Savimbi.
Higino Carneiro não conhecia, antes do dia 19 de Maio de 1991, o General Ben Ben (Arlindo Chenda Pena) ou, pelo menos, não tinha com ele nenhum contacto oficial.
Higino Carneiro mentiu quando disse ter pedido a William Tonet para redigir o comunicado final. Primeiro, Tonet não era seu empregado nem subordinado, logo actuou como mediador, por consenso das partes.
Higino Carneiro mentiu, pois ele não convidou os jornalistas. Estes estavam em Saurimo e seguiram depois no mesmo helicóptero, com autorização do então chefe do Estado Maior e do comandante da Frente que era o já falecido general Agostinho Fernandes Nelumba “Sanjar”, pois Higino Carneiro não foi responsável pela defesa daquelas posições.
Dúvidas? Basta ver o que sobre o assunto disseram o General Mackenzi que era das comunicações da UNITA, que iniciou contacto directo com William Tonet, e o General Chilingutila, militares íntegros que não fizeram, como Higino Carneiro, da mentira uma forma de vida?
Higino Carneiro mentiu pois não disse por que razão só William Tonet e ele foram recebidos pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, depois de regressarem do Moxico. Dúvidas?
A História escreve-se com a verdade que, mesmo quando bombardeada insistentemente pela mentira, acabará por se sobrepor a todo o género de maquinações e acções de propaganda. É, por isso, legítimo que se faça pedagogia e formação quando, por razões mesquinhas, alguns tentam apagar o que de bom alguns, muitos, angolanos fizerem pela sua, pela nossa, terra. E tentam apagar, revelando um manifesto complexo de inferioridade e um mal resolvido complexo rácico, por temerem que a verdade os mate. Esquecem-se que, mesmo recorrendo à história, a salvação só se consegue com respeito pela verdade.
E não é por esconder a verdade que ela deixa de existir. Em 1991, quando as forças da UNITA sitiaram por 57 dias a cidade do Luena, William Tonet, que cobria o conflito por parte das tropas do “Galo Negro”, abordou o seu então amigo General “Ben Ben” e um outro general das FAPLA, Higino Carneiro, que aceitaram a sua proposta de tréguas que ficou conhecida como os acordos do Alto Kauango, que foram a “mãe” dos acordos de Bicesse.
Não adianta o MPLA, o regime, Higino Carneiro e outros sipaios (mesmo que tenham várias estrelas nos ombros) que se julgam donos da verdade, “esquecerem” a verdade dos factos. Eles são exactamente isso, factos. E um deles, o de ter sido um angolano a mediar pela primeira vez o conflito entre angolanos, deveria ser motivo de regozijo e de reconhecimento interno e externo. Só a mesquinhez de uns tantos, agora revitalizada por Higino Carneiro, pode levar a que se tente, sem sucesso – é certo, apagar esta verdade. Uma de muitas outras que, infelizmente, ainda se encontram enclausuradas por medo de represálias.
O facto de o cidadão, jornalista, William Tonet ser inimigo público do regime, mau grado a sua luta ter sido sempre em prol dos angolanos, de todos os angolanos, revela igualmente que na História que o regime quer que se escreva só têm lugar os que são livres para estarem de acordo com ele.