COMO NÃO HÁ INTELIGÊNCIA REAL… VENHA A ARTIFICIAL!
A rápida evolução da Inteligência Artificial (IA) exige estratégias claras, maior responsabilização dos Conselhos de Administração e uma articulação efectiva entre os sectores público e privado para garantir uma adopção segura e sustentável da tecnologia em Angola, defendeu Estevão Zinga, especialista em Inteligência Artificial, Estratégia e Transformação Digital.
A posição foi apresentada durante a sua participação no Painel 6 do CyberSecur Summit 2026, subordinado ao tema “Pusemos tudo na IA. Mas quem continua a decidir?ˮ, no qual o especialista abordou os desafios da integração da inteligência artificial nas organizações, a crescente autonomia dos sistemas inteligentes e a necessidade de reforçar os mecanismos de governação e responsabilização.
O co-fundador do Fórum Nacional de Inteligência Artificial (FNIA), Estevão Zinga assegura que a utilização de ferramentas de IA não representa, necessariamente, uma adopção estratégica da tecnologia. Segundo explicou, a integração efectiva exige processos estruturados, liderança, competências, regras de governação e indicadores capazes de medir os resultados alcançados.
“Utilizar Inteligência Artificial não significa necessariamente que uma empresa já adoptou a tecnologia de forma estratégicaˮ, afirmou, sublinhando que as organizações devem ultrapassar a fase experimental e transformar os projectos-piloto em soluções capazes de gerar valor sustentável.
O especialista considera que a velocidade de evolução tecnológica torna ainda mais importante a definição de prioridades e objectivos empresariais. Sem uma orientação estratégica, alertou, as empresas correm o risco de acelerar a implementação de ferramentas sem obter ganhos proporcionais de produtividade, eficiência e competitividade.
Outro ponto destacado na intervenção foi o aumento da capacidade dos sistemas de Inteligência Artificial para analisar informação, recomendar acções e executar determinadas operações de forma automatizada.
Sectores como a banca, as telecomunicações e a cibersegurança apresentam oportunidades de aplicação desta tecnologia, nomeadamente na detecção de fraudes, optimização de redes, atendimento ao cliente e identificação de ameaças digitais.
Estevão Zinga advertiu que a crescente autonomia dos sistemas deve ser acompanhada por mecanismos de supervisão, controlo e responsabilização, sobretudo nos processos com maior impacto operacional, financeiro ou social.
“Podemos automatizar processos e determinadas decisões, mas não podemos transferir para os algoritmos a responsabilidade que pertence às organizaçõesˮ, salientou.
Na sua perspectiva, o grau de autonomia concedido aos sistemas deve ser proporcional aos riscos envolvidos. Em decisões críticas, as empresas devem assegurar mecanismos de validação, rastreabilidade e intervenção humana sempre que necessário.
O especialista alertou igualmente para os riscos associados ao fenómeno conhecido como Shadow AI, que consiste na utilização de ferramentas de Inteligência Artificial sem autorização, visibilidade ou controlo institucional adequado.
A prática pode ocorrer tanto em empresas privadas como em instituições públicas, quando os colaboradores recorrem a plataformas de IA para analisar contratos, resumir relatórios, elaborar documentos ou processar informação interna sem conhecerem as implicações de segurança.
A partilha de dados pessoais, documentos confidenciais e informação estratégica em plataformas não autorizadas pode comprometer a confidencialidade dos dados e criar riscos de exposição de informação e de incumprimento de regras de protecção de dados.
Para Estevão Zinga, a resposta não deve passar pelo bloqueio generalizado da tecnologia, mas pela criação de condições para a sua utilização segura e responsável.
“O problema não é os colaboradores utilizarem Inteligência Artificial. O problema é utilizarem ferramentas sem políticas claras, sem orientação e sem conhecimento dos riscos associados à partilha de informação confidencialˮ, referiu.
Neste contexto, defendeu a implementação de políticas corporativas que estabeleçam regras sobre protecção de dados, classificação da informação, ferramentas autorizadas, responsabilidades e mecanismos de supervisão.
A formação dos colaboradores e a disponibilização de soluções empresariais adequadas foram igualmente apontadas como medidas necessárias para conciliar os ganhos de produtividade com a segurança da informação.
No plano nacional, o especialista defendeu uma articulação mais estruturada entre o Estado, o sector privado, as instituições académicas e os organismos reguladores para promover a adopção responsável da Inteligência Artificial em Angola.
Segundo Estevão Zinga, a construção de um quadro nacional de governação deve considerar a legislação em vigor, as iniciativas regulamentares em desenvolvimento e as referências internacionais, tendo em conta princípios como segurança, transparência, inovação e protecção dos cidadãos.
O responsável considera que as orientações nacionais devem resultar de um processo colaborativo, envolvendo as entidades públicas competentes, os reguladores sectoriais, as empresas e a academia.
Ao nível das organizações, salientou a importância da cooperação entre as áreas de Transformação Digital, Inteligência Artificial e Dados, Cibersegurança, Capital Humano e Inovação, sob supervisão da liderança executiva.
Esta articulação, explicou, permite alinhar os investimentos em IA com os objectivos de negócio, os requisitos de segurança e as competências necessárias à implementação das soluções.
Estevão Zinga defendeu ainda que a Inteligência Artificial deve deixar de ser tratada exclusivamente como uma questão tecnológica e passar a integrar a agenda estratégica dos Conselhos de Administração.
À medida que os sistemas inteligentes influenciam decisões operacionais, financeiras e comerciais, torna-se necessário estabelecer responsabilidades claras, acompanhar o desempenho das soluções e avaliar os riscos associados à sua utilização.
Entre as medidas apontadas estão a definição de estratégias de IA, a aprovação de políticas de utilização responsável, a criação de indicadores de desempenho e o acompanhamento do retorno dos investimentos.
O especialista destacou igualmente a importância de funções de liderança dedicadas à estratégia e à governação da Inteligência Artificial, incluindo a figura do Chief AI Officer, quando a dimensão e a complexidade da organização o justificarem.
De acordo com o responsável, o próximo desafio das empresas angolanas consiste em passar da experimentação tecnológica para uma adopção estruturada, orientada para resultados e sustentada por mecanismos adequados de governação.
A criação de valor, a segurança da informação, o desenvolvimento de competências e a responsabilização pelas decisões devem constituir prioridades para as organizações que pretendem integrar a IA nos seus processos.
“O verdadeiro sinal de maturidade de uma organização não está na quantidade de ferramentas de IA que utiliza, mas na sua capacidade de gerar valor, controlar os riscos e assumir responsabilidade pelas decisõesˮ, defendeu.
A intervenção no CyberSecur Summit 2026 colocou em evidência a necessidade de preparar as organizações angolanas para uma nova fase de adopção da Inteligência Artificial, na qual estratégia, governação, cibersegurança e desenvolvimento de competências devem avançar de forma coordenada.
A mensagem central do especialista é que os riscos associados à IA não devem conduzir ao bloqueio da inovação, mas incentivar a criação de mecanismos de controlo e responsabilização que permitam aproveitar o potencial da tecnologia de forma segura e sustentável.
Estevão Zinga é especialista em Inteligência Artificial, Estratégia e Transformação Digital, com experiência no sector das telecomunicações, arquitectura de soluções tecnológicas e liderança de iniciativas de transformação organizacional.
É co-fundador do Fórum Nacional de Inteligência Artificial (FNIA), iniciativa dedicada à promoção do conhecimento, do debate e do desenvolvimento do ecossistema de IA em Angola. É também professor universitário e participa em conferências e fóruns sobre tecnologias emergentes, inovação e transformação digital.