DE BARRIGA CHEIA, JOSEFA SACKO AVANÇA PARA A FAO
O Governo de Angola (do MPLA há 50 anos) oficializou hoje, em Roma, Itália, a candidatura da embaixadora Josefa Sacko a directora-geral do Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Em Angola, dizia em 2022 o então ministro da Agricultura, António de Assis, “as enxadas estão a ser alugadas à hora para se poder cultivar”.
Por Orlando Castro
A cerimónia decorreu na sede da FAO, em Roma, num evento organizado por Angola, à margem do Fórum Mundial da Alimentação, que decorre em Itália, e no qual o país está representado ao mais alto nível pelo Presidente do MPLA, na circunstância usando por inerência o “fato” de Presidente da República, general João Lourenço.
O lançamento oficial da campanha da candidatura da embaixadora angolana foi feito pelo ministro das Relações Exteriores, Téte António, e conta com o apoio da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e da União Africana.
Engenheira agrónoma de formação, Josefa Sacko é actualmente embaixadora de Angola em Itália, e apresenta para a FAO “uma visão centrada na valorização da agricultura familiar, das mulheres e da juventude, na modernização dos sistemas de produção e no reforço da segurança alimentar, segundo divulgou o Governo angolano que, internamente, regista a existência de mais de 20 milhões de pobres.
Em comunicado, o executivo do MPLA salienta que “a candidatura de Josefa Sacko à direção-geral da FAO constitui uma das prioridades da diplomacia angolana no quadro da participação do país nos fóruns multilaterais ligados à agricultura, à alimentação e ao desenvolvimento sustentável”.
Angola sustenta a candidatura com “a experiência profissional e institucional da candidata, que exerceu as funções de secretária-geral da Organização Interafricana do Café e de Comissária da União Africana para a Agricultura, Desenvolvimento Rural, Economia Azul e Ambiente Sustentável”.
A sua candidatura “dá prioridade ao fortalecimento da agricultura familiar, ao acesso das mulheres e dos jovens aos meios de produção, à criação de oportunidades de emprego para a juventude e à renovação geracional no setor agrícola”. Fica por saber se, como faziam os portugueses há mais de 50 anos, o Governo de João Lourenço vai autorizar a plantar as couves com a raiz para baixo…
A candidata propõe “a digitalização dos sistemas agroalimentares, a utilização da inteligência artificial, o reforço da capacidade de adaptação às alterações climáticas e a mobilização de financiamento para projetos sustentáveis e economicamente viáveis”.
Durante a sua intervenção que fez hoje, em Roma, o chefe da diplomacia angolana, Téte António, defendeu que a FAO deve continuar a ser “uma organização que coloque a ciência, a inovação e a tecnologia ao serviço da agricultura”.
Em Março de 2022 o então ministro da Agricultura e Pescas, António de Assis, afirmou que agricultores do interior do país disputavam enxadas e catanas, por falta de produção local, considerando que este é um dos factores que limita o desenvolvimento do sector.
A FAO é uma organização “que apoie os pequenos produtores e as comunidades rurais, que promova o investimento e facilite o acesso ao financiamento e aos mercados, que fortaleça a cooperação entre países e regiões e que contribua para que os sistemas agroalimentares sejam mais produtivos, inclusivos, resilientes e sustentáveis”.
Esta é a visão que a embaixadora Josefa Sacko submete à consideração dos Estados-membros e é uma visão que Angola considera poder contribuir para aproximar ainda mais a FAO das necessidades concretas dos seus países membros, segundo o Governo angolano.
NEM ENXADAS, NEM CATANAS
O então ministro da Agricultura e Pescas, António de Assis, afirmou no dia 18 de Março de 2022 que agricultores do interior do país disputavam enxadas e catanas, por falta de produção local, considerando que este era (é) um dos factores que limita o desenvolvimento do sector. Nem enxadas nem catanas. Coisas da crise… que já dura há 50 anos, não é senhor general João Lourenço? O melhor mesmo é pescar com enxadas e semear com anzóis. Ou, então, fazer como faziam os tugas – plantar as couves com a raiz para baixo…
Para António de Assis, a falta de fabrico interno de meios de produção agrícola, nomeadamente catanas, enxadas, carros de mão, agulhas e de fertilizantes e pesticidas condicionava o fomento da produção agrícola, levando os agricultores a disputarem estes meios.
Segundo o governante, a falta de conhecimento e de mercado constam também entre os factores que inviabilizam o crescimento da agricultura em Angola, defendendo que as acções das autoridades deviam convergir com o sector.
“A nível de Catabola [província do Bié] encontrar sementes e pesticidas é difícil, nas principais regiões onde se produz não há enxadas e no Bailundo [província do Huambo] as enxadas estão a ser alugadas à hora para se poder cultivar”, contou António de Assis.
O país “não produz enxadas, precisamos fazer diplomacia económica para atrair investimentos e produzir localmente enxadas, catanas, carros de mão, machados, regadores, facas, agulhas para coser os sacos e outros meios de produção”, frisou.
“Há alguns passos positivos nesse sentido, mas ainda insuficientes para as necessidades do país”, salientou.
O ministro falava durante a segunda edição do Café CIPRA (Centro de Imprensa da Presidência da República de Angola), que abordou o “Fomento da Produção Nacional e a Sustentabilidade da Reserva Estratégica Alimentar (REA)”.
A ausência de um “mercado sólido, que é todo o conjunto que congrega leis, normas, procedimentos, centrais logísticas, estradas e o ambiente em si onde a produção é levada” também emperram o desenvolvimento da agricultura, segundo o ministro. “Há esforços nesse sentido, hoje é possível verificar acções nesse domínio, mas precisamos de mais”, realçou.
Em relação ao que considerou de “défice acentuado de conhecimento” para a agricultura, António de Assis apontou que, no interior de Angola, a sementeira do milho e da mandioca “não obedece às normas técnico-científicas” do sector.
Com uma “sementeira correcta do milho”, exemplificou, a produção cresce a 100%: “A plantação da mandioca nos campos agrícolas é incorrecta, digo isso do ponto de vista técnico-científico e o mesmo se aplica à plantação da banana”.
“Angola tem de ser um país virado para a agricultura e todo o momento precisamos de analisar o sector para definir parâmetros de actuação conjunta, todos os sectores ministeriais devem estar ligados à agricultura por ser um sector transversal”, disse.
Apesar dos actuais constrangimentos”, observou António de Assis, “nos últimos anos foram dados passos significativos no domínio da agricultura e pescas e mesmo durante a pandemia o país não teve falta de alimentos”. Nada foi dito sobre se os agricultores, contrariando as ordens superiores do MPLA, já plantam as couves com a raiz para… baixo.
“E pelo país há bastante produção local, há produtos agrícolas com alguma frequência e qualidade a nível do país. No país, há um despertar pela necessidade de se produzir, sobretudo devido às dificuldades do passado e a consciência de se consumir produtos locais”, apontou.
Enquanto província ultramarina de Portugal, até 1973, Angola era auto-suficiente, face à diversificação da economia… incluindo a produção de enxadas. Não tenhamos receio de aprender com quem sabe mais e fez melhor, muito melhor. Só assim poderemos ensinar quem sabe menos.
Angola era o segundo produtor mundial de café Arábico; primeiro produtor mundial de bananas, através da província de Benguela, nos municípios da Ganda, Cubal, Cavaco e Tchongoroy. Só nesta região produzia-se tanta banana que alimentou, designadamente a Bélgica, Espanha e a Metrópole (Portugal) para além das colónias da época Cabo-Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.
Era igualmente o primeiro produtor africano de arroz através das regiões do (Luso) Moxico, Cacolo Manaquimbundo na Lunda Sul, Kanzar no Nordeste Lunda Norte e Bié.
Ainda no Leste, nas localidades de Luaco, Malude e Kossa, a “Diamang” (Companhia de Diamantes de Angola) tinha mais 80 mil cabeças de gado, desde bovino, suíno, lanígero e caprino, com uma abundante produção de ovos, leite, queijo e manteiga.
Na região da Baixa de Kassangue, havia a maior zona de produção de algodão, com a fábrica da Cotonang, que transformava o algodão, para além de produzir, óleo de soja, sabão e bagaço.
Na região de Moçâmedes, nas localidades do Tombwa, Lucira e Bentiaba, havia grandes extensões de salga de peixe onde se produzia, também enormes quantidades de “farinha de peixe”, exportada para a China e o Japão.
JOSEFA VENDE “SACKOS” DE PERLIMPIMPIM
Em Outubro de 2021, a então comissária da União Africana, Josefa Sacko, defendeu, em Adis Abeba, que a mudança de paradigma “de volta ao básico” é promover e redireccionar os modelos de investimento agrícola para integrar os alimentos tradicionais e indígenas africanos, que prevaleceram nas dietas de gerações anteriores. Para os 20 milhões de pobres angolanos bastaria fuba, feijão e peixe…
A diplomata junto da União Africana falava por vídeo conferência na comemoração da 12º edição do “Dia de África para a segurança alimentar e nutricional” considerou – escreveu o Jornal de Angola – que, as áreas rurais, em grande parte, ainda subsistem com essas plantações e raças de animais cultivadas em casa e inteligentes para o clima.
Josefa Sacko destacou ainda que a pesquisa descreveu uma quantidade significativa de benefícios que “nossos alimentos tradicionais e indígenas oferecem, isso inclui benefícios agronómicos, de saúde e económicos”.
Para a comissária, a questão da persistência da fome e da desnutrição no continente, levou a um repensar dos sistemas alimentares, especialmente com os desafios emergentes relacionados a causas naturais e desastres provocados pelo homem incluindo a estabilidade.
Durante a sua intervenção, ressaltou igualmente que uma série de pesquisas apontam para o consumo crescente de alimentos que são caracterizados pela deficiência na densidade de micronutrientes, biodiversidade e padrões de segurança.
Essa edição do “Dia da África pela segurança alimentar e nutricional” foi marcada pelo tema “Redescobrindo as nossas dietas locais africanas para sistemas alimentares e nutrição sustentáveis”, contou com a colaboração do AUDA-NEPAD e com o apoio dos parceiros tradicionais da Agências da ONU, nomeadamente, FAO, PMA, UNICEF, OMS e do ECA.
Participaram ainda, outros parceiros globais, como o Fórum para Pesquisa Agrícola na África (FARA), HarvestPlus, Centro Internacional da Batata, Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), “Nutrition International”, Agricultura para Nutrição e Saúde, e pelo Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares.
Angola tem terras aráveis e bom clima para desenvolver o sector agrícola, declarou, em Janeiro de 2019, em Adis Abeba, Josefa Sacko. Finalmente (ao que parecia, mas que não se confirmou) e ao fim de várias décadas, alguém do MPLA descobria que temos terras aráveis e bom clima.
“Temos que ter uma política clara na área da produção, investigação para podermos alavancar a produtividade agrícola”, disse Josefa Sacko que reconheceu o pouco rendimento produtivo de Angola no sector da agricultura, embora sendo um país com terras aráveis.
Ou seja, sejamos francos e honestos, bastaria fazer (continuar a fazer) o que os portugueses aqui fizeram até 1974. Mas isso, convenhamos, é pedir demasiado a quem (o MPLA) acha que é dono da verdade e que, por isso, considera que tudo o que os tugas fizerem foi mau. Por alguma razão o general João Lourenço diz que “o MPLA fez mais em 50 anos do que os portugueses em 500”.
Relativamente ao continente africano, na sua generalidade, referiu que 80 por cento dos alimentos consumidos têm origem na agricultura familiar, pois a estrutura agrícola em África é familiar. A seu ver, sem produção não se pode alimentar a população nem fazer a industrialização de produtos.
Nova e hilariante descoberta de Josefa Sacko. Sem produção não se pode alimentar a população? Ora essa! Então esquece-se da dieta imposta pelo governo angolano a mais 20 milhões de cidadãos que, todos os dias, revelam que estão a aprender a viver sem comer? É certo que os que estiveram mais próximos de atingir esse desiderato… morreram. Mas isso pouco importa!
Josefa Sacko defendeu a necessidade dos países continuarem a ter uma política clara na área da produção, investigação para alavancar a produção agrícola.
“Nós temos o programa CADEP, um projecto que foi adoptado pelos Chefes de Estados africanos em 2003, em Maputo, Moçambique, que prevê um financiamento de 10 por cento no sector agrícola das despesas públicas nas áreas da agricultura, florestas, pescas e ambiente”, sublinhou.
A então comissária da UA frisou que só 20 países estão a progredir em termos da declaração de Maputo e de Malabo, em relação aos compromissos programado pelos Chefes de Estados para transformar a agricultura no continente africano.
Recorde-se que, depois de um faustoso repasto, Josefa Sacko afirmou em Luanda, no dia 27 de Março de 2018, que Angola progrediu na redução da fome, mas que precisava de reforçar a estratégia para diminuir a pobreza, agravada com o desemprego entre jovens.
Josefa Sacko falava à imprensa à margem do encontro de lançamento do Processo de Reformulação do Plano Nacional de Investimento Agrícola de Angola (PNIA), que visava alinhar a agenda interna com as metas internacionais, quer a continental quer a global, respectivamente para 2030 e para 2063, para que possa reduzir a pobreza e acabar com a fome até 2025.
Apenas para contextualizar a temática, recorde-se que Angola tem mais de 20 milhões de pobres, muitos dos quais nunca ouviram falar de uma coisa que Josefa Sacko conhece bem: refeições.
“Houve muitos progressos para acabar com a fome, tendo na base os programas de segurança alimentar”, disse (a angolana) Josefa Sacko, sublinhando que, em termos de combate à pobreza, Angola precisa de “fazer mais esforços”.
“A extrema pobreza é condenada a nível mundial e temos a questão do desemprego dos jovens, que é um dos pontos que acentua a pobreza no nosso continente e não só. As nossas zonas rurais, onde se faz a agricultura, deve ser revista para podermos investir e operar aí uma transformação”, frisou.
Por sua vez, na mesma altura, o então ministro da Agricultura e Florestas de Angola, Marcos Nhunga, disse que a disponibilização dos recursos para o sector “continuam aquém do indicado” para o alcance dos objectivos do pacto.
Segundo o ministro, o Governo angolano mostrou o seu empenho para alavancar o desenvolvimento da agricultura nacional, em particular, e africana em geral, ao aderir, em Junho de 2011, à plataforma continental integrada no Programa Detalhado para o Desenvolvimento da Agricultura em África (PDDAA), satisfazendo os ideais da Declaração dos chefes de Estado e do Governo da UA para 2033.
O governante acrescentou que o compromisso foi reforçado em Junho de 2014, com a assinatura da Declaração de Malabo (Guiné Equatorial), na 23.ª assembleia dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana.
Nas declarações à imprensa, Marcos Nhunga referiu que é preciso que Angola olhe para a forma como a agricultura se está a definir actualmente, vendo-a como “um sector fundamental para a redução da pobreza, garantindo a segurança alimentar e nutricional das populações”.
Marcos Nhunga destacou que a Declaração de Malabo previa que cada país contribua, no mínimo, com 10% dos seus orçamentos para o sector da agricultura, de forma a combater a pobreza e garantir a segurança alimentar e nutricional.
“É verdade que demos saltos qualitativos relativamente à diminuição da fome no nosso país, mas temos indicadores relativos à pobreza. O que se pretende aqui é fazer um alinhamento do Plano de Investimento da Agricultura, para que possamos cumprir com as agendas, não só nacional, como também africana e internacional”, avançou.
O titular da pasta da Agricultura e Florestas de Angola disse que o país saiu de um índice de mais de 60% da taxa de fome para menos de 30%, entre 2013 e 2015. E então se esse índice levasse em conta os dados da realeza do MPLA, será certo avançar que a taxa de fome é zero.
“E continuamos a lutar para baixar esses indicadores. No entanto, se não forem disponibilizadas mais verbas, não só para o sector da agricultura, mas também para o sector produtivo, de uma forma geral, é lógico que iremos atrasar-nos quanto às metas. Cumprimos isso até 2015. É esse o grande objectivo que se pretende a nível africano: podermos ver todas nações livres da fome, pobreza e com uma garantia de segurança alimentar e nutricional”, enfatizou.