MEA aponta pobreza como principal causa do abandono escolar em Angola – Correio da Kianda
A pobreza continua a ser apontada como a principal causa do abandono escolar em Angola, sobretudo entre crianças provenientes de famílias em situação de vulnerabilidade. A posição foi defendida pelo presidente do Movimento de Estudantes Angolanos (MEA), Simão Formiga, durante espaço “O Dia em Análise”, do programa Prime Time, da Rádio Correio da Kianda.
Para o dirigente estudantil, a expansão da rede escolar e o aumento do número de matrículas não são suficientes para garantir a permanência das crianças no sistema de ensino. Na sua perspectiva, o combate à pobreza deve acompanhar as políticas de expansão do ensino.
“Não é possível que você inclua todas as crianças no sistema de ensino, embora a construção de escolas esteja a acontecer, se não acabar com a pobreza”, afirmou.
Simão Formiga explicou que muitas crianças chegam a ser matriculadas, mas acabam por abandonar as aulas para realizar actividades que lhes permitam obter algum rendimento e contribuir para o sustento das famílias.
Como exemplo, citou crianças que trabalham como engraxadores de sapatos e conseguem obter dinheiro diariamente.
“Essa criança, entre ir à escola e não ter nada que a atraia, prefere o que dá valor no dia. A escola precisa ser atractiva e motivar a ficar”, disse.
Segundo o presidente do MEA, a necessidade imediata de sobrevivência coloca muitas famílias perante escolhas difíceis, fazendo com que algumas crianças priorizem actividades remuneradas em detrimento da frequência escolar.
Para o dirigente estudantil, o combate ao abandono escolar exige, por isso, uma abordagem que não se limite à construção de escolas e à disponibilização de vagas. Defende a criação de melhores condições sociais e económicas para que as famílias consigam manter as crianças no sistema de ensino.
Simão Formiga considera igualmente necessário tornar a escola mais atractiva, de modo a competir com as oportunidades de rendimento imediato que surgem fora do ambiente escolar.
O jurista Francisco Nduli reconheceu que a pobreza e a fome estão entre os factores que contribuem para o abandono escolar, mas apontou avanços com a implementação da alimentação escolar a partir do ano lectivo de 2025.
“Precisamos compreender que o abandono escolar reduziu significativamente com a implementação da alimentação escolar”, avaliou.
Apesar de concordar que a fome pode levar à desistência, o jurista defendeu que o fenómeno tem múltiplas causas e não deve ser associado exclusivamente às dificuldades económicas.
“Concordo plenamente que às vezes a desistência tem que ver com as questões da fome. Mas, em contrapartida, existem vários factores também”, destacou.
Francisco Nduli chamou ainda atenção para factores que afectam particularmente as raparigas, sobretudo durante a transição da adolescência para a idade adulta.
Segundo o jurista, nesta fase existe um conjunto de factores que pode contribuir para a interrupção dos estudos entre as alunas.
Nduli considera que o Governo ainda se encontra num processo de adaptação às novas políticas de educação, mas sustenta que os dados de 2024 e 2025 já revelam uma alteração significativa no número de desistências escolares.
A discussão evidencia, assim, que embora a pobreza continue a representar um dos principais obstáculos à permanência das crianças na escola, medidas como a alimentação escolar podem contribuir para reduzir o abandono e melhorar a retenção dos alunos.