Igreja Católica desafia MPLA e UNITA a criar mecanismo para evitar confrontos – Correio da Kianda
A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) desafiou o MPLA e a UNITA a criarem mecanismos rápidos e funcionais de resolução de conflitos, com capacidade para intervir antes que divergências políticas evoluam para confrontos e episódios de violência.
A proposta consta de uma nota divulgada esta segunda-feira, 31 de Agosto, na qual os bispos católicos manifestam profunda preocupação com os recentes episódios de violência e intolerância registados no Uíge, no Cazombo e noutras localidades do país.
A CEAST defende que os dois principais partidos políticos devem estabelecer mecanismos de comunicação e reacção rápida nas capitais provinciais, municípios e comunas, de modo a permitir a resolução imediata de situações de tensão entre militantes e apoiantes.
A iniciativa é comparada ao chamado “telefone vermelho”, mecanismo de comunicação directa associado à Guerra Fria e utilizado para facilitar contactos urgentes entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. Para os bispos, uma solução semelhante poderia ser adaptada à realidade angolana, funcionando nos níveis nacional, provincial e comunitário.
A posição da Igreja Católica surge depois dos confrontos registados no Uíge, a 8 de Agosto, durante actividades relacionadas com a UNITA, que resultaram em dezenas de feridos, segundo informações divulgadas na altura. A UNITA acusou a Polícia Nacional de uso excessivo da força, enquanto as autoridades policiais afirmaram ter recorrido a força moderada para dispersar os manifestantes.
No Cazombo, a CEAST também aponta a ocorrência de incidentes que considera preocupantes, alertando que estes episódios não devem ser tratados como casos isolados, uma vez que situações semelhantes podem ocorrer noutras comunidades sem alcançar a mesma atenção mediática.
Para os bispos, actos de violência, intolerância e confrontação política “abalam o próprio sentido de Nação” que Angola procura construir. Por isso, defendem que não basta reagir aos confrontos depois de estes ocorrerem: é necessário identificar as causas e criar instrumentos capazes de impedir a sua repetição.
A CEAST reconhece que, desde o fim da guerra civil, há 24 anos, os angolanos têm vindo a reforçar os laços de amizade e reconciliação nacional, embora considere que esse processo tem avançado mais lentamente do que seria desejável.
A proposta surge igualmente num momento de crescente actividade política dos dois maiores partidos do país, a menos de um ano das eleições gerais de 2027, aumentando a importância de mecanismos de diálogo capazes de impedir que disputas políticas locais evoluam para situações de violência.
A recomendação da CEAST está alinhada com o debate mais amplo sobre prevenção de conflitos que marcou a Cimeira Extraordinária da União Africana realizada em Luanda, a 30 de Agosto, onde os líderes africanos defenderam o reforço de mecanismos de prevenção e resolução pacífica de conflitos.